De junho para cá, as manifestações tomaram conta do país e seguem com força, principalmente no Rio de Janeiro. O povo não estava interessado apenas na revogação do aumento de 20 centavos nas passagens dos transportes públicos. Seu interesse ia - e vai - além, mesmo que os 20 centavos tenham sido apenas a gota d'água. Cientistas políticos e sociais e intelectuais de um modo geral buscaram compreender o fenômeno, mas não conseguiram, ainda hoje, de modo satisfatório. E na incompreensão, muita gente opinou. Uma das teorias mais correntes era a de que os Black Blocs e o Anonymous não passavam de grupos fascistas, interessados ou num golpe militar ou na desmoralização do PT para a retomada do poder, nas próximas eleições, pelo PSDB.
Sobre um possível golpe militar orquestrado pelos jovens vândalos, porque mascarados, acredito que não há mais quem sustente essa hipótese, tamanho o absurdo. Mas se o tópico é ditadura, vamos pensar sobre o que ocorre aqui no Rio de Janeiro de uns meses para cá. A polícia militar, a cada dia que passa, sob o comando do governador Sérgio Cabral, a pretexto de manter a ordem nas ruas, tem reprimido violentamente qualquer manifestação que se oponha ao governo. Ruas são fechadas e nem mesmo moradores podem escolher o percurso que lhes convém para chegar em casa. Isso aconteceu no Leblon - quando a polícia militar estava claramente protegendo bens privados - e em Laranjeiras, bairro sede do Palácio Guanabara - isso para não falar no casamento da Dona Barata e no recente fechamento da Cinelândia (!). Não apenas o direito de ir e vir da população foi cerceado; seu direito de se manifestar, de demonstrar descontentamento com a política atual e de fazer, portanto, oposição também foi extinto. Nas manifestações, bombas de efeito moral, de gás lacrimogêneo, balas de borracha, cassetetes e spray de pimenta (em alguns casos munição letal também), em grande quantidade e de forma covarde e arbitrária, são utilizados para que os manifestantes não se manifestem; policiais se misturam ao povo para iniciar confusões e criminalizar os protestos; pessoas são presas arbitrariamente, sem qualquer justificativa; "provas" são forjadas para justificar detenções; advogados são impedidos de trabalhar e impedir que jovens sejam injustamente encarcerados; a mídia alternativa é igualmente perseguida e ameaçada para que não registre a truculência empregada pela polícia de Cabral; e a grande imprensa ou se cala ou manipula as informações. Quem presenciou o que acontece quando o Batalhão de Choque se dispõe a cumprir as ordens do governador, seja pela imprensa alternativa seja nas próprias manifestações, tem a certeza, hoje, de que não havia risco de ditadura - ela já existe. Vivemos hoje um Estado de exceção, sem sombra de dúvida. E muita gente se mostrava contrária aos protestos receosos de reviver os anos de chumbo da ditadura militar, talvez ajudando e fortalecendo o governo, mesmo que indiretamente.
Quanto ao segundo tópico - a retomada do poder pelo PSDB -, não tenho muito o que dizer, exceto o que me parece óbvio. Em primeiro lugar, se realmente houvesse, no meio da multidão, partidários da direita e simpatizantes dos tucanos, por que isso deslegitimaria os protestos? Numa democracia todos têm o direito de se manifestar, ou não? Por que o PT deveria estar a salvo de qualquer crítica que lhe fosse feita? Devo acreditar que o país, graças ao Partidos dos Trabalhadores (nome hoje irônico para a estrela vermelha), está tão bom que seria um gesto de vandalismo se posicionar de forma contrária? E mesmo que estivesse, a oposição deveria ser banida? Qual o nome que se dá a isso? A meu ver, deveria ser feito um mea culpa pelos defensores do PT e o porquê de suas ressalvas às manifestações. Não acredito que a maioria das pessoas nas ruas eram de direita, embora elas também pudessem estar presentes, mas para quem defendia que o povo na rua equivalia a uma desmoralização do PT, o que respondo é que, infelizmente, foi o próprio PT que se desmoralizou. Quando finalmente Lula chegou ao poder, o Brasil teve a grande chance de se firmar como um país de esquerda, mas não foi isso o que ocorreu. As alianças equivocadas assumidas em nome da governabilidade atendiam a quais interesses? E de quem? Enumerar as causas do desgaste que o PT sofre por causa de suas escolhas seria cansativo e desnecessário, todos já sabem o que há de errado - e não me refiro ao mensalão. Para ficar apenas no Rio de Janeiro, como a presidente Dilma ainda não se pronunciou diante da barbárie que vem sucessivamente sendo cometida aqui? O que o Mercadante espera para dar um nota que seja sobre o que o Eduardo Paes e o Sérgio Cabral estão fazendo com a Educação?
Para finalizar, aviso ao petistas, que temiam a volta do tucanato, para não se preocuparem: em São Paulo, por exemplo, Alckmin também foi e é alvo de protestos. Chegou a hora de entendermos, todos, que a luta não é contra um ou outro partido - a luta é contra o sistema, que continua privilegiando uma parcela ínfima da sociedade, a mesma que detém o capital. O que queremos é um governo que seja, de fato, preocupado com o povo, com o trabalhador. Mais, preferencialmente que estes trabalhadores - e não políticos profissionais, filhos da burguesia e perpetuadores do status quo - cheguem ao poder. Acredito que esteja na hora de substituirmos o capitalismo, que já demonstrou toda a sua iniquidade. Que venham Educação, Saúde, Transportes, Segurança, Moradia, Habitação, Alimentação padrão Fifa. Trocamos os suntuosos estádios de futebol por saúde e educação para começar.